“Das Turmêntas hà Boua Isperansa” é o nome do livro em que Sérgio Castro reuniu histórias dos períodos mais importantes dos Trabalhadores do Comércio, banda do Porto que comemora 30 anos e que tem concerto marcado para dia 5 de Maio na Maia.

“Tive um trabalhão, gastei mais de um ano da minha vida a fazer o livro”, diz Sérgio Castro sobre o volume, um profuso trabalho gráfico, repleto de imagens, que reúne recordações da vida da banda que muitos recordam pelos temas divertidos como “Lima 5″, “Tá caladinho ou levas no fucinho”, “A cançom quiu abô minsnoue” ou a popular “Chamem a polícia”.

Tudo começou no rebentar do rock português, em 1981, quando Sérgio Castro e Álvaro Azevedo, que integravam os Arte e Ofício, banda de rock que cantava em inglês, quiseram embarcar numa nova aventura que apanhasse a onda de êxitos iniciada por Rui Veloso.

“Começaram a azucrinar-nos o cérebro para cantar em português” lembra Sérgio Castro que, como primeira resposta, afirma que não queria ser comparado “com malta do punk rock, esses gajos que só tocam 3 acordes”. Mas com Álvaro Azevedo, acabou por inventar “este produto de laboratório” que segundo afirma até “repescava muitas canções dos Arte e Ofício “que tinham ficado na gaveta” rejeitadas por membros como António Pinho Vargas.

O humor provocante que caracterizou os Trabalhadores do Comércio, afirmou Sérgio Castro, “sempre esteve presente nas letras” que fazia para as músicas dos Arte e Ofício, o problema era cantar em português.

“Não dormi um par de noites a pensar como é que eu, que andei não sei quantos anos a dizer que não canto em português vou justificar esta mudança” lembra o músico. A solução? “Já sei: não canto em português, canto à Porto e comecei a cantar com aquele sotaque absurdo”.

Uma outra característica distintiva dos Trabalhadores do Comércio, que tiraram o nome do sindicato do sector num cartaz que anunciava uma greve, foi integrar João Luís, mais tarde João Médicis, um irrequieto vocalista de 7 anos, sobrinho de Sérgio Castro.

“Aparece o João no meio daquela equação a dizer que a canta a canção tal, porque nós não conseguíamos cantar e, de repente,e funda-se aquele trio absolutamente anacrónico”, recordou Sérgio Castro.

Trabalhadores do Comércio

Foto: DR

O trio haveria de conquistar projecção nacional, 5 álbuns e muitos concertos, lembrados nos seus episódios mais pitorescos ao longo do livro agora editado, como aquele em Casal de Comba, freguesia de Mealhada onde para ter um desconto de 5 contos (250 euros) no cachet de 95 contos a comissão de festas decidiu pagar com um leitão assado. O recibo, com a devida descriminação, é reproduzido no livro, entre muito outro material gráfico, pedaços da história do rock português.

Os Trabalhadores do Comércio acabariam por interromper a actividade em 1983, perante alguma desilusão pelo fraco resultado comercial do álbum que sucederia a “Tripas à Moda do Porto”, o “Na Braza” e “a transição do João da escola primária para o ciclo, quendo ele começa a descobrir-se para outras actividades e mesmo a questionar se aquilo da música era mesmo o que queria fazer” recorda Sérgio Castro.

João acabaria por regressar aos Trabalhadores que voltariam para mais discos e concertos e até para um primeiro lugar no Festival da Canção, mas Sérgio Castro, que também recorda isso no livro, acabaria por nunca mais deixar de repartir a sua actividade pelo estúdio que abriu na Galiza e pela colaboração em outros projectos como os Stick, ou os espanhóis Semem Up ou Resentidos.

Hoje continuam a cantar com a força da pronúncia do Norte, até porque Sérgio Castro, “auto-exilado” na Galiza com viagens frequentes ao Porto, nunca se conformou com um país onde “houve sempre tendência para as pessoas viajarem até ao Sul, não sei se é o sol que as deslumbra…”