Foto: ACE

Os finalistas da Academia Contemporânea Espectáculo (ACE), no Porto, escolheram “Marat/Sade”, um texto “complexo” de Peter Weiss, para darem, a partir de quinta-feira, o “passo no escuro” rumo ao mercado profissional.

“O grupo que me propôs dirigir a sua prova de aptidão profissional destacou-se na escola por querer arriscar um projecto seu, por querer conhecer alguma coisa mais profundamente”, explicou, esta terça-feira, António Júlio, o encenador da “Marat/Sade”, sobre a escolha do texto “complexo” do dramaturgo alemão.

António Júlio percebeu que os alunos da ACE estavam dispostos a viver “uma experiência mesmo que fosse dura, que implicasse uma pesquisa mais profunda” e partiu então para uma investigação sobre a loucura, “sobre os lugares da sociedade dita normal ou normalizada”.

Questionando-se sobre o que é “ser sadio ou perturbado ou doente”, os finalistas encontraram o texto que, a partir desta quinta-feira, levam à cena no Estúdio Zero, no Porto, em co-produção com As Boas Raparigas.

“A investigação foi o princípio que nos levou ao Peter Weiss. Depois foi a paixão pelo texto, pelo que ele nos trouxe ao nível do que podíamos estudar, do que podíamos relacionar e do que podíamos reflectir exactamente nos dias de hoje”, contou.

De acordo com António Júlio, Marat/Sade une a reflexão sobre a revolução ao pensamento sobre o individual e colectivo e ao que hoje se vive em Portugal e no mundo.

“Este texto contém essa riqueza, esses ‘links’ para a vida actual, para o estudo do que foi ou do que tem sido o período contemporâneo desde a revolução francesa. Levanta muitas questões e, para jovens dos 18 aos 21 anos, é mesmo algo que lhes parece novidade, é algo que desconheciam, e com que têm aprendido bastante”, admitiu.

O encenador revelou que para os actores foi tudo “bastante curioso”, um verdadeiro “passo no escuro”, num caminho que ainda não sabem o que lhes vai trazer.

“Mas um passo cheio de vontade”, completou, indicando que a peça coincide com o início de uma vida profissional, de saída da escola e da entrada num mercado, que é esse caminho “mais ou menos obscuro”.

Para António Júlio, o desafio levanta questões e coloca-os perante a sua própria vida e uma sociedade, ainda mesmo no início para eles.

“Tenho percebido que é um lugar novo para eles, porque estão à sua responsabilidade”, disse.

Entre esta quinta-feira e 6 de Agosto, o público poderá ver o resultado da “prova obrigatória” dos 6 finalistas da ACE, que serão acompanhados em palco por 10 ex-alunos da escola.

“Só a encenação é que não está em prova”, brincou o encenador, apontando que a interpretação, a cenografia, os figurinos, o desenho de luz, a sonoplastia estarão todos debaixo do escrutínio de um júri.