Miudinha mas incessante (o nosso povo chama-lhe molha-tolos), imprevisível, vinda de todos os lados. A chuva foi o principal inimigo dos festivaleiros do Primavera Sound, na noite em que o festival deixou o Parque da Cidade para se instalar, este domingo, no Hard Club e na Casa da Música.

Vencedores da noite de sábado: as canções simples dos Kings of Convenience, a melancolia dos The xx e os discretamente poderosos Dirty Three. Perdedores: quem queria ver Death Cab For Cutie e James Ferraro, cujos concertos foram cancelados.

Com a chuva, o cenário mudou: perfilavam-se milhares de capas impermeáveis, centenas de guarda-chuvas e, no caso dos menos precavidos, soluções mais inventivas, como sacos plásticos. Foi este cenário que encontrou os Gala Drop, nata da música portuguesa, às 17h. A música deles – psicadélica, expansiva – pede sol, mas, apesar do cenário cinzento, os poucos que saíram de casa mais cedo foram recompensados.

Também com a mente posta nos astros, Jason Pierce, todo ele de branco, mostrou como os seus Spiritualized são uma maneira de chegar ao divino pelo rock. Suave, suavemente, conquistou uma audiência com alguns fiéis. Ali ao lado, os Sleepy Sun mostraram tiques de rock setentista.

Com os cancelamentos de James Ferraro (que não apanhou o voo a tempo para o Porto) e dos Death Cab For Cutie (a chuva fez das suas no Palco Optimus e os trabalhos de reparação adiaram o concerto, algo impossível de compatibilizar com o voo que tinham para sair do Porto), coube aos históricos Afghan Whigs tentar elevar a moral. Mas foi The Weeknd no Palco Club, pelas 22h, o que melhor o fez, com a sua R&B de travo indie a sobreviver à passagem para palco.

A chuva parara e em boa hora, já que os Dirty Three mereceram a boa enchente no palco ATP. Com um violinista diabólico (Warren Ellis), uma guitarra aos círculos e Jim White simultaneamente hiperactivo e gentil na bateria, cozinharam uma música estupidamente bela.

O gentil vendaval eléctrico dos australianos intrometeu-se nas canções simples, guiadas por guitarra acústica, dos Kings of Convenience, herdeiros directos de Simon & Garfunkel que repetiram o êxito alcançado em Paredes de Coura, em 2011. ”Podem explicar-me porque somos tão amados em Portugal/Talvez porque, como vocês, ficamos contentes quando estamos tristes”, improvisaram. O elogio da canção.

Se a música electrónica dos Saint Etienne pareceu presa a um passado a que não queremos voltar, a de Forest Swords (outro grande momento do palco ATP) conquistou pela sua síntese vibrante de dub, dubstep, sintetizadores cósmicos e até um momento drum’n'bass.

Ao cair do pano (para alguns, a noite continuou com propostas dançáveis no Palco Club), os The xx confirmaram o estatuto de culto. A sua música simples (batidas rarefeitas, guitarra quase básica) mas eficaz já não é um segredo bem guardado: canções como “Crystalised” foram entoadas pela multidão. O trio inglês aproveitou para mostrar novos temas que deverão fazer parte de “Coexist”, o álbum que vai lançar em Setembro, e que confirmam uma aproximação à música de dança.