A Feira do Bairro foi o "aquecimento" para o 4.º TRANSdisse. Foto: Nuno Fangueiro

E se a animação que acontece de 2 em 2 meses ali para os lados da rua Miguel Bombarda, com as já famosas Inaugurações Simultâneas, fosse uma realidade diária e permanente? Para quem mora no chamado Quarteirão das Artes, para quem tem ali negócios e para quem o visita? Não é preciso imaginar.

O Bairro das Artes Circuit pretende mudar a forma como todas estas pessoas vivem aquela zona da baixa, transformando-a numa espécie de “nova aldeia”, com actividades tão variadas como aulas de ioga ou concertos de ópera. Este projecto comunitário está inserido no Festival TRANSdisse, um evento anual organizado pela associação cultural Terra na Boca e cujo tema em 2012 é, precisamente, “O Ano do Bairro”.

O “bairro” abrange 7 ruas no chamado Quarteirão das Artes — Miguel Bombarda, do Breyner, da Maternidade, do Rosário, Adolfo Casais Monteiro, da Boa Nova e de D. Manuel II — e o Largo da Maternidade. E o projecto comunitário tem 3 públicos: os bairrões — residentes no bairro —, os bairristas — quem ali trabalha e faz do bairro a sua montra — e os visitantes (locais, nacionais e estrangeiros).

Os primeiros “vão ter desconto de 10% em todas as acções de formação e 50% nas entradas” em espectáculos e outros eventos pagos, explicou ao P24 Luciano Amarelo, que tem a seu cargo a direcção artística, programação e coordenação geral do festival. Para isso, os moradores só têm de pedir a sua caderneta, que custará 1 euro.

“São as pessoas que moram lá, mas que não usufruem do bairro, sobretudo do ponto de vista artístico. Estas pessoas, nos dias das inaugurações, não saem de casa. É horrível”, contextualiza o promotor.

A Terra na Boca faz 3 anos em Março e diz-se a única associação cultural do Porto que mistura as áreas artística, cultural, social, ambiental e de bem-estar. O núcleo duro da associação é composto por cerca de 10 pessoas, que abraçam as áreas da criação, formação, produção e promoção, trabalhando sempre em rede e aproveitando parcerias. A associação cultural está, por exemplo, sediada no espaço JUP, que é seu parceiro, e desenvolve actividades no Contagiarte e na Bombarda Oficina de Artes.

Os bairristas, “lojas e projectos dentro do bairro que aderem ao projecto”, pagam “condomínio” — 20 euros por mês ou 50 o trimestre — para criar com a Terra na Boca ”uma agenda diária e permanente”.

“Vamos trabalhar circuitos temáticos que vão no fundo organizar a oferta dentro do bairro, mas também para além dele. Queremos que, até ao final do ano, o bairro esteja na boca do mundo”, explica Amarelo.

Já em curso

Um dos circuitos de que fala Luciano Amarelo é o circuito eco-social “Os Caminhos do Romântico”, com Pedro Jorge Pereira, que já está a funcionar.

O guia “fala das hortas e espaços verdes ali à volta e que estão abandonados, do percurso que já existiu e que é histórico, de figuras históricas associadas” e consciencializa os participantes para um património que é preciso preservar — Luciano Amarelo, a propósito deste circuito, lamenta que as placas que indicam os trajectos e que foram colocadas na Porto 2001 – Capital Europeia da Cultura estejam “totalmente vandalizadas”. O circuito custa 8 euros e repete todas as sexta-feiras, das 10h às 13h — com inscrições 2 dias antes.

Às quintas, há aulas de ioga no espaço Bombarda Oficina de Artes. Cada aula custa 5 euros — os colaboradores da Terra na Boca pagam 2.

“Abraçar as Inaugurações”

No dia 21, o TRANSdisse vai “abraçar as Inaugurações [Simultâneas] no programa do Bairro das Artes Circuit”. “Vamos criar um circuito de manhã até à noite, em que as pessoas poderão, suponhamos, começar por fazer uma aula de ioga às 10 da manhã e terminar a assistir a um concerto no Breyner [85]. Pelo meio, poderão ver as inaugurações nos espaços aderentes”, explica Luciano Amarelo.

Para além do blogue da Terra na Boca — o site está a ser reformulado e terá em breve uma nova imagem —, a agenda do TRANSdisse 2012 pode ser seguida no Mapa Bairro das Artes Circuit, em papel, que começa a ser distribuído precisamente a 21 deste mês. Em Março, será lançada ainda a “Gazeta do Bairro”, jornal mensal sobre o TRANSdisse.

“Janeiro é o mês mais invisível. E o dinheiro do ‘condomínio’ serve para promover a acção”, explica Luciano Amarelo. Este mês, 23 bairristas aderiram ao projecto Bairro das Artes Circuit e para Fevereiro a organização já tem 26 inscritos. A meta é chegar aos 100 bairristas em Março.