Ana Cristina Pereira

Ana Cristina Pereira

Uma rapariga que oferece sexo em troca de uma dose e acaba morta durante o acto sexual, debaixo de um viaduto do Porto. Uma brasileira, correio de droga, que acaba presa no Aeroporto Francisco Sá Carneiro e que, depois disso, se vai sentir “livre” na cadeia de Santa Cruz do Bispo. Um casal que mantém uma história de amor numa fábrica do Porto ocupada por fantasmas – agarrados ao vício como eles.

Estas e outras histórias de droga – a cocaína, droga em expansão – e de pessoas – todas mulheres, consumidoras, traficantes ou produtoras – estão reunidas em “Viagens Brancas”, o novo livro de Ana Cristina Pereira, com edição da Arcádia.

A maioria das 12 reportagens foram publicadas nos últimos 3 anos no “Público” (com algumas diferenças), onde a jornalista do Porto escreve, mas há também 3 textos inéditos.

Desde que começou a ser jornalista e integrou a redacção do “Público”, em 1999 (ano em que imperava o “triângulo infernal” S. João de Deus-Lagarteiro-Cerco), que Ana Cristina Pereira se tem dedicado aos temas da exclusão social. Mais do que dar notícias, interessa-lhe “ir mais longe” e mergulhar mais fundo nas histórias.

“O jornalismo tem de ir mais longe. Se não, para que é que serve? Uma das coisas que o jornalismo ainda pode fazer, numa época de tanta proliferação de informação, é apostar na verificação e ir mais longe, dar histórias”, diz ao P24.

Para nos dar as histórias de “Viagens Brancas”, Ana Cristina Pereira tanto andou poucos quilómetros, para ir ao encontro do Porto da toxicodependência (aos bairros do Aleixo e Dr. Nuno Pinheiro Torres, por exemplo), como se meteu num avião para ir a uma prisão de Cabo Verde entrevistar Zany, “número 3″ numa rede internacional de tráfico de cocaína. Zany nunca tinha falado com um jornalista.

Amor no meio do caos

Ana Cristina Pereira alonga-se quando fala de Zany, que se aperaltava como uma “baronesa” em plena cadeia, ou de um casal que vivia numa fábrica abandonada no bairro Pinheiro Torres. Interessam-lhe as pessoas e as marcas que a droga “não leva”.

Depois da demolição do bairro S. João de Deus, o tráfico fixou-se, sobretudo, nos bairros do Aleixo, do Cerco e Pinheiro Torres. Com a demolição do Aleixo, para onde iria? Já havia transferências. “Dezenas de toxicodependentes numa fábrica do Pinheiro Torres”, disse-lhe a fonte.

Na fábrica , encontrou Carla e António (nomes fictícios). “Fiquei muito sensibilizada com o esforço que faziam por manter a parte deles da fábrica limpa. A zona deles, lá em cima, estava toda limpinha. Foi impressionante o esforço que faziam para tornar a ‘casa’ mais casa. Acompanhei-os ao longo de 6 semanas. Traziam móveis, tapetes, garrafões de 25 litros de água para tomar banho”, recorda.

Apesar do vício e do lixo à sua volta, Carla e António alimentavam a sua história de amor. Quando Carla foi detida pela polícia, António foi, a pé, ter com ela entregar-lhe um iogurte e um maço de tabaco. Detalhes como este desmontam o “mito” que diz que um toxicodependente em “fim de linha” só vive para a droga, diz Ana Cristina Pereira. É uma pessoa como eu ou como tu, que tem sentimentos, que ri, que chora, que ama, que tem medo..