José Paixão

José Paixão. Foto: Pedro Rios

José Paixão saiu do Porto, rumo a Santa Fe, nos Estados Unidos, para estudar, tinha apenas 15 anos. Depois, estudou ou trabalhou em Vermont, Viena, Amesterdão e Londres. Nesses sítios nunca viu o que via no Porto: um sem-fim de casas abandonadas.

“Isto é inconcebível”, diz o arquitecto, de 27 anos, ao P24, agora que voltou ao Porto. Regressou com uma missão, que quer levar a cabo com Diogo Coutinho, engenheiro civil especializado em reabilitação, e Angélica Carvalho, estudante de Arquitectura na Escola Superior Artística do Porto: reabilitar edifícios de senhorios carenciados, privados ou camarários, a custo zero.

O trio recebeu esta semana um grande empurrão: o primeiro prémio  do concurso FAZ – Ideias de Origem Portuguesa, uma iniciativa das fundações Gulbenkian e Talento para distinguir iniciativas de portugueses no estrangeiro, no valor de 50 mil euros. Chamaram ao projecto Reabilitação a Custo Zero.

O projecto-piloto deve arrancar em Outubro, num edifício devoluto de que a Câmara do Porto é dona, no centro histórico.

Um sistema em que todos ganham

No início, tinham “a ambição” de fazer algo pela reabilitação das cidades, mas não sabiam como ainda. Puseram mãos à obra e concluíram que os processos de reabilitação em Portugal estão demasiado dependentes do mercado. “E o mercado não funciona” em muitos casos, explica José Paixão.

Os custos de reabilitar um edifício repercutem-se no preço da renda, que afasta muitos habitantes do centro e torna menos atractivo o investimento de privados.

Rapidamente, perceberam que tinham que engendrar um “sistema colaborativo, em que todos ganham” e a “custo zero” – o “primeiro princípio”. Da ambição passaram ao projecto: uma associação com fins não lucrativos em que estudantes de arquitectura ou engenharia (portugueses ou estrangeiros) que trabalhassem com materiais doados por empresas.

José Paixão explica que os estudantes ficam a ganhar porque têm uma “experiência” prática e envolvem-se num projecto de voluntariado. As empresas põem em prática a propalada responsabilidade social e podem deduzir os gastos no IRC. O único encargo para os senhorios será dar alojamento e alimentação aos estudantes voluntários.

Para além das empresas e da Câmara do Porto, que apoia o projecto e também sai beneficiada porque “não tem recursos” para reabilitar todos os edifícios degradados, a equipa está a falar com escolas de ensino superior da cidade para que possam fazer dos projectos de reabilitação “casos de estudo”, diz o arquitecto.

Depois de 12 anos no estrangeiro, a notícia de que venceram o prémio FAZ - “um voto de confiança”, algo mais importante do que os 50 mil euros – fez José Paixão voltar ao Porto. “Tenho vontade ter uma participação activa na minha cidade e no país”, justifica. “Não estava nos meus planos voltar”.