Júlio Couto, na Fábrica Social. Foto: Nataniel Diogo

A origem da festa de S. João é pagã. Há muitos, muitos anos atrás, na noite de 23 para 24 de Junho celebrava-se o “solstício de Verão”. Segundo Júlio Couto “Nessa noite, as pessoas vingavam-se das dificuldades que viviam nos outros dias do ano”.

Foi na Fábrica Social – Fundação Escultor José Rodrigues que o P24 foi ouvir o historiador portuense, no feriado de 10 de Junho. “Sê Júlio”, como o tratam os vizinhos mora desde 1976 na zona da Fontinha, é amigo de José Rodrigues e “devoto” da festa popular. “Não podia dizer que não ao Zé. E falar do Porto é a segunda razão pela qual nunca digo que não”, explicou.

“A festa mais marcante da cidade” nasceu quando ainda “não havia electricidade”. “Havia fogueiras e cavacos”, recorda Júlio Couto, e rapazes e raparigas saltavam à fogueira de mão dada. Dar o alho-porro a cheirar era uma forma de os rapazes saudarem as raparigas que lhes despertavam interesse sexual.

A escultura de João Cutileiro que está na Fonte de S. João, na Ribeira, foi inaugurada no ano 2000. A fonte é de séc. XVIII e durante muitos anos o seu nicho esteve vazio. “Contei tantas vezes esta história no tempo em que a vereadora da Cultura era uma amiga minha, ela ouviu-a tantas vezes que um dia anunciou publicamente que ia encomendar um S. João para o nicho. Eu fiquei cheio de medo. Quem é que ia fazer o santo? Quando descerraram o S. João que a Manuela [de Melo] tinha encomendado ao Cutileiro, diz-me um dos tipos daquela malta da Ribeira que estava ao meu lado: ‘Ó Sê Júlio, já viu? Lá em cima, puseram o santo a mijar de costas para a cidade, aqui põem um S. João maricas’”.

Segundo o historiador, “a determinada altura, a Igreja quis apagar os resquícios deste paganismo”, sem sucesso. “Cá em cima, somos de granito. A Igreja quis dobrar o granito mas não conseguiu”. “Então, foi arranjar um santo que pagasse o patau, de maneira a poder dizer que aquelas festas todas eram em honra do S. João”, conta Júlio Couto.

O S. João não é, ao contrário do que muitas pessoas pensam, o padroeiro do Porto, mas foi adoptado como festa da cidade há precisamente 100 anos. Foi num referendo popular promovido pelo Jornal de Notícias, em 1911, que a população reconheceu a festa do santo como festa da cidade e abriu caminho à instituição do feriado municipal.

“É o único santo que tem festa duas vezes no ano”, sublinha Couto: no dia em que terá nascido, 24 de Junho, e no do seu martírio, 29 de Agosto.

O prato típico era o anho

Hoje em dia, é já uma tradição comer sardinhas assadas no S. João, mas o prato típico da festa, em concreto do dia 24, era o anho ou cabrito assado com arroz de forno.

“Nós comíamos anho. Só passamos a comer sardinhas depois, porque o cabrito era muito caro”, conta Júlio Conto, do alto das suas 76 primaveras.

E a tradição da sardinha dividida em 3, vem de onde? “Não se vivia com grande euforia económica, mas, com 5 tostões para um alho-porro e vontade de brincar, o S. João era nosso”, recorda o historiador.

Desfiando curiosidades sobre o Santo Popular como quem come cerejas, umas atrás das outras, “Sê Júlio”, que foi júri das cascatas sanjoaninas durante vários anos, recorda os tempos em que a noite dita mais longa do ano – mais longa porque a folia dura até ser de dia; na verdade, esta é a noite mais curta do ano – se vivia de outra maneira.

Alho-porro numa mão e a catraia pela outra

As ilhas faziam bailes e afixavam os prémios que ganhavam nos concursos de cascatas para toda a gente ver. Havia imensos bailes de bairro, de comunidades mais pequenas, e, por volta da meia-noite, todos os caminhos iam dar às Fontainhas.

“Nos bailes, uma fonte de receita eram as 2 coroas que o rapaz dava para tocarem uma música para impressionar a miúda e as 2 coroas que ele dava para amansar a velha, a mãe da miúda”, brinca Júlio Couto.

Perto da meia-noite, alguém gritava “vamos para as Fontainhas” e era ver 200 mil pessoas a correr as artérias do centro da cidade rumo ao baile da Praça da Alegria – um dos mais afamados –, às Fontainhas e à rampa da Corticeira. “O cerimonial era levar o alho-porro na mão esquerda e a mão direita a apranchar a catraia”. Nem mais.

Por alguma razão, insinua o historiador, tempos houve em que, “na maternidade Júlio Dinis, os médicos já sabiam que não havia férias para ninguém 9 meses depois do S. João” – “Eu sei que nasci em Março”.

“Coitado do santo que não tinha culpa nenhuma e ficou a pagar o patau da nossa alegria”, repete “Sê Júlio”.