Mário, o “Príncipe” sem-abrigo, foi espancado

Pintaram "Sr. Mário, O Príncipe da Areosa" no local onde vivia. Foto: Pedro Rios
Dizem que o seu carisma é de tal forma marcante que, um dia, um grupo de voluntários pintou no pilar junto ao qual vivia “Sr. Mário, O Príncipe da Areosa”. Mário já não está no colchão velho onde costumava dormir, debaixo do viaduto da Areosa. Foi agredido com violência na cabeça, na madrugada de sábado, e está no Hospital de São João com um traumatismo crânio-encefálico, inconsciente e com um prognóstico reservado
Tudo terá acontecido às primeiras horas da manhã, entre as 4h00 e as 6h15, hora em que Mário (que vive nas ruas da Areosa há duas décadas, nas contas de um membro de um grupo de voluntários que apoia sem-abrigo, e que pediu para não ser identificado) deu entrada no São João.
O INEM foi chamado por um vigilante nocturno, que viu Mário estendido junto à entrada de um prédio, na Travessa dos Heróis da Pátria. No chão, ainda se vêem manchas de sangue.
Ao que o P24 apurou, dois indivíduos começaram a agredir Mário, ainda debaixo do viaduto da Areosa, onde dormia há anos. Depois, arrastaram-no até à entrada do prédio, onde o continuaram a agredir. Ali ficaria até à chegada da ambulância. Um outro sem-abrigo, que dormia junto a Mário, fugiu dos agressores.
“Um homem bom”
Ninguém percebe o que ali aconteceu (nem voluntários, nem moradores, nem trabalhadores da zona). Não foi o primeiro caso de agressões a sem-abrigo (no passado, um extintor foi despejado nos olhos de um e o colchão de Mário já foi incendiado enquanto ele dormia).
“No fundo, é bater num morto. É como uma criança, não tem qualquer capacidade de defesa”, diz o voluntário ao P24. “As pessoas que fizeram isto serão ainda mais desgraçadas do que ele”.
Descreve o “Príncipe da Areosa”, que conhece há mais de três anos, como um “homem bom”, “muito conhecido” na zona. Um homem a quem a vida correu mal – “tem um monte de irmãos que não lhe ligam nenhuma”.
Mário é “muito difícil de recuperar” (sofre de alcoolismo, “está bastante débil”), mas “tem deixado uma marca nas pessoas que têm um bocadinho de tempo para perder com ele”. “Eu vou lembrar-me sempre dele”, afirma o voluntário.
“É uma grande fonte de alegria quando está contente. Às vezes é muito divertido, muito jovial; outras vezes, fica ali debaixo dos cobertores, trata-nos mal. Tem um comportamento muito instável, muda de humor às vezes a meio de uma visita. Mas é uma pessoa que tem o poder de cativar”, diz.
É esse carisma que “mantém as pessoas à volta dele e que o mantém vivo, porque ele não faz nada bem a si mesmo”, conta a mesma fonte. “Vai conseguindo dinheiro para os copos. Alimenta-se pouquíssimo. Vive muito à base do vinho”.











Não compreendo estas atitudes. Gostava de saber, da boca de quem as faz, o porquê. Com a Gisberta deu para compreender, ao ouvir os miúdos a falarem, mas ainda assim, o que é que leva uma pessoa (ou várias) a isto?
Excelente destaque. Obrigado.
Com a Gisberta deu para compreender? Espancarem, violarem com um pau e abandonarem-na à sua morte num buraco, deu para compreender!?!?
Pobre escolha de palavras, realmente. Muito pobre. O que queria dizer é que fez-se alguma luz ao ler o que os agressores disseram. Não são monstros, não são animais. Se não se tentar compreender nunca se vai conseguir que situações destas deixem de acontecer.
Eu li as declarações dos agressores mas continuei a não compreender porque aconteceu. Só compreendi que fracassamos enquanto sociedade face àquelas crianças e à sua vítima.
Precisamente.
Ao contrário do que diz a notícia, o Mário terá direito a funeral, estamos a aguardar a realização da autópsia para que o corpo seja inumado no Cemitério Prado do Repouso.
Desde já agradeço as manifestações de carinho para com o meu tio.
Sem querer ofender, mas espero que nos ultimos anos tenha tido a mesma humildade de lhe ter chamado TIO na cara.
O funeral do Mário Gomes será na próxima
2ª feira, dia 14 de Março às 14:30 no Cemitério do Prado do Repouso.
Deus Te Abençoe e Ilumine, Mário!!!*
Obviamente que foi uma estupidez o que aconteceu e só tenho pena que dificilmente se encontrem (e punam) os agressores, mas fiquei confuso: alguém que era sem-abrigo há anos conseguia sofrer de alcoolismo? Há alguma fonte de vinho na Areosa?
Porreiro era que esses grupos de voluntários ensinassem a pescar em vez de darem peixe; se calhar o sem-abrigo já tinha conseguido alguma coisa de jeito na vida (um emprego, sei lá) e já não estaria debaixo do viaduto. Mas desde que o € seja deles é-me igual ao litro.