Avenida dos Aliados

Milhares de pessoas encheram a Avenida dos Aliados e a Praça da Liberdade. Foto: AIP

A organização fala em 80 mil pessoas, a PSP aponta para as 50 mil. São os números do protesto da Geração à Rasca que, este sábado, encheu as ruas do Porto. A manifestação, que acabou por não ser geracional, da tal geração à rasca, mas sim intergeracional, de “um país à rasca”, partiu da Praça da Batalha e terminou na Praça da Liberdade. Ao início da tarde, já se adivinhava que tanta gente não ia caber na Praça D. João I, local inicialmente apontado para o término do protesto.

O Porto foi a segunda cidade do país com mais pessoas nas ruas. Segundo a organização do protesto, 200 mil participaram na manifestação em Lisboa.

“Já fazia falta um encontro como este. Somos uma geração à rasca, num país precário, com 900 mil falsos recibos verdes, 700 mil desempregados, 400 mil trabalhadores precários e 20 mil alunos que perderam a bolsa”, disse um dos participantes que, já com a Praça da Batalha cheia de gente, falou a seguir à organização, na abertura do protesto.

Minutos antes, a organizadora Inês Gregório sublinhara que este era um protesto “apartidário, laico e pacífico”.

O P24 acompanhou em directo o protesto. Pode ver ou rever a cobertura que fizemos da manifestação durante toda a tarde aqui.

Entre as pessoas mais velhas, havia quem protestasse por ainda estar em situação precária, apesar de estar na pré-reforma, e quem representasse os filhos da geração à rasca.

José Ferreira, 56 anos, na pré-reforma, veio de Leça da Palmeira para protestar em nome da filha, uma licenciada em Ciências da Informação que está a fazer um mestrado porque não encontra emprego na sua área de formação. “Eu felizmente tive um emprego para toda a vida, durante 36 anos. Isso já não existe. Hoje em dia parece que os jovens têm de pagar para trabalhar”, disse José Ferreira ao P24. A filha ficou a cuidar de um sobrinho, um bebé de 9 meses.

Rogério Rodrigues, 59 anos, lamentava o facto de a filha, formada em Engenheira Química, ter acabado a trabalhar a recibos verdes no Pingo Doce.

Já Isilda Leite, 56 anos, representante de uma associação  nacional de amas, veio com 12 outras pessoas, de Braga, Vizela e Porto. Ao P24, disse que em Portugal “há 1400 amas a trabalhar com falsos recibos verdes”. Têm horário (12 horas por dia), salário fixado pelas instituições para quem trabalham e não têm subsídios de férias ou de Natal. Recebem, “em média, 700 euros por mês”.

Praça D. João I

A Praça D. João I também serviu de palco ao protesto da Geração à Rasca. Foto: AIP

Entre os jovens, havia recém-licenciados, mas também estudantes, dos ensinos Secundário e Superior. Sara Rocha, estudante na Universidade de Coimbra, vive numa residência dos Serviços de Acção Social e garante que os cortes na atribuição de bolsas trouxe dificuldades a muitos colegas que estão em risco de deixar a universidade. E pior: “há muita gente que está a passar fome nas nossas universidades”. Há quem esteja a comer “bolachas e leite”, denunciou a jovem na escadaria da Igreja de Santo Ildefonso, o púlpito improvisado no início do protesto.

Em marcha, os milhares que responderam ao apelo que começou no Facebook, seguiram pela Rua de Santa Catarina, rumo à Avenida dos Aliados. Houve quem cortasse caminho e também quem se juntasse já a meio do protesto.

Inês Gregório, da organização do protesto, disse, em jeito de balanço, em frente ao Banco de Portugal, na Praça da Liberdade: “Esperávamos mil, 2 mil, 3 mil, mas 80 mil? Quase 80 mil pessoas responderam ao nosso apelo! Isto é só o começo. Somos todos responsáveis por apresentar propostas. É importante que o debate continue depois disto”. Ainda estávamos a meio da tarde.

A Desfolhada continua actual

Foi, ainda na Praça da Batalha, que aconteceu um dos momentos mais especiais do protesto, quando Susana Silva, 25 anos, de Paços de Ferreira, se apresentou como cantora de rua, “com orgulho”, e presenteou a multidão com uma interpretação apaixonada da canção “Desfolhada Portuguesa”, de Simone de Oliveira. O tema, com que Simone venceu o Festival RTP da Canção de 1969, é tido como símbolo de coragem e determinação.

“Não sabia que ia haver um momento em que podíamos falar. Foi de improviso, mas sei que é uma música que ainda toca muito os portugueses”, disse ao P24 a jovem de Paços de Ferreira, que à semana trabalha “40 horas” no negócio de móveis dos pais e nos tempos livres canta nas ruas do Porto.
Susana estudava design gráfico em Castelo Branco, mas desistiu do curso porque não conseguia aguentar-se 3 empregos em simultâneo – “trabalhava num restaurante, num call center e ainda cantava ao vivo”.

A solução é emigrar

Ruben  Moutinho, 28 anos, licenciado em Design pela Universidade de Aveiro e mestrando em Viana do Castelo, está desempregado e acredita que “a solução é emigrar”. Quando esteve empregado, não lhe pagaram o salário devido.

“Em Setembro talvez me mande para Itália em Erasmus, mas a ideia é ir e não voltar”, disse ao P24 na Avenida dos Aliados.

O amigo, Pedro Barbosa, com quem segura uma faixa a dizer “Recibos verdes? Not Like!” e com o símbolo do “Like” no Facebook, tem 25 anos e é recém-licenciado em Arquitectura. Para ele, a solução foi começar a trabalhar por conta própria. Ainda assim, passa recibos verdes. “Recebo por trabalho/projecto e o meu trabalho é mal remunerado”, disse ao P24.

A PSP acompanhou sempre o protesto, colocando elementos policiais na frente e na cauda da marcha e em locais estratégicos da baixa, e cortou o trânsito nas ruas por onde passou e se prolongou esta ‘manif’ de várias gerações à rasca.

Foram vários os órgãos de comunicação social que acompanharam este protesto, incluindo meios espanhóis, e centenas os cidadãos repórteres. As reivindicações de quem participou nesta manifestação serão entregues aos deputados da Assembleia da República.