Rua da Sé

Sé é das freguesias do Porto menos habitadas. Foto: Ana Isabel Pereira

Lisboa deu o primeiro passo, anunciando que vai reduzir o seu número de freguesias, e, há dias, o Governo deu o segundo: a discussão da reforma administrativa do país começa na Primavera. O vice-presidente da delegação do distrito do Porto da Associação Nacional de Freguesias (Anafre), Fernando Amaral, defende, em declarações ao P24, que o concelho do Porto deve reduzir o seu número de freguesias antes das eleições autárquicas de 2013.

Fernando Amaral, que é também presidente da Junta de Freguesia de Campanhã, defende a fusão das freguesias do centro histórico do Porto numa só (uma ideia já antiga) e sugere também a união de Nevogilde com Foz do Douro. “Optimizar recursos” seria o objectivo desta reforma, justifica o socialista.

O argumento usado pelos adeptos de mudanças no mapa administrativo é o reduzido número de habitantes destas freguesias. Miragaia, Sé, Vitória e São Nicolau são as freguesias menos populosas do Porto (todas têm menos de 5.000 habitantes, segundo os censos de 2001) e Nevogilde fica-se pelos 5.257 habitantes. Os autarcas e especialistas ouvidos pelo P24 pedem também um reforço das competências das freguesias.

O presidente da Anafre manifestou-se esta sexta-feira contra a fusão de juntas se não forem garantidas condições de funcionamento. “No plano dos princípios, somos contra a extinção e fusão das freguesias, porque ninguém tem o direito de eliminar uma identidade, mas se me falarem da necessidade de dignificar a instituição freguesia, dando-lhe condições de escala para funcionar com dignidade, é uma matéria que nos é muito cara”, disse à Lusa, citado pelo “Públicoonline.
Fernando Amaral defende que se faça este trabalho de reorganização “a tempo e horas” para que não se criem possibilidades de um autarca concorrer nas eleições de 2013 a uma freguesia que seria extinta pouco depois. “Estou convicto de que vai acontecer. O mapa autárquico tem que ser alterado, não é só aqui no Porto”, afirma.

O P24 contactou todas as juntas do Porto, mas só Campanhã e Bonfim aceitaram falar. A Câmara do Porto também não respondeu às perguntas do P24.

Divisão “mais lógica”

Também Armindo Luís Teixeira, presidente da Junta de Bonfim, defende um novo quadro de freguesias, tendo em conta as dimensões geográfica e populacional. Mas vai mais longe: a divisão “deveria ser mais lógica no terreno”, “por quarteirões”. A Rua de Pinto Bessa, exemplifica, atravessa duas freguesias, Campanhã e Bonfim. “Não é razoável”.

O autarca social-democrata também defende a fusão das “mini-freguesias” do centro histórico e a união de Nevogilde com a Foz do Douro, porque “confundem-se”. “Se Lisboa passa para 24 freguesias, no Porto não se justificaria ficar com 15″, diz.

Mário Fernandes, do departamento de Geografia da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), diz que “conjugar 2 ou 3 freguesias é um acto de operacionalidade em termos de gestão”. “Mas ouçam as pessoas” antes de avançar, recomenda ao poder político.

Porto diferente de Lisboa

José Rio Fernandes, também membro do departamento de Geografia da FLUP, diferencia o caso de Lisboa do do Porto. “As freguesias do Porto têm, em média, o dobro da área das de Lisboa”, lembra.

“Tenho dúvidas se as vantagens do ponto de vista da dimensão compensam a perda do ponto de vista da toponímia e identificação das pessoas com território. São Nicolau penso que não seria grande perda. Já Sé e Vitória penso que custaria um pouco haver só uma”, afirma o geógrafo.

“Qualquer mexida ou é muito bem justificada ou então é inflamar um debate que me parece evitável”, continua. Por isso, Rio Fernandes não é favorável a mudanças no mapa administrativo do Porto, “a não ser que haja vontade das juntas e dos moradores”.