O constitucionalista Pedro Bacelar de Vasconcelos criticou esta segunda-feira, no Porto, a tentativa de “responsabilizar falsamente um povo inteiro pelas desgraças que lhe ocorrem”, apontando a situação de crise que se vive nomeadamente na Grécia e em Portugal.

Esta é “uma estratégia de ocultação da incapacidade da União Europeia para corrigir as assimetrias de desenvolvimento que esta união económica ou monetária claudicante veio promover”, considerou o constitucionalista numa conferência sobre “Direitos Humanos e Democracia. Presente e futuro”, promovida pela Universidade Portucalense.

Pedro Bacelar de Vasconcelos lembrou que “a Grécia começou por ser apresentada como uma excepção a precisar de um castigo vigoroso que rapidamente a reconduzisse aos padrões de comportamento impostos nesse clube de democracias que é a UE, mas a verdade é que o problema não só não se resolveu, como continuou a agravar-se e a alastrar. Pouco depois, Portugal juntava-se a esse clube dos preguiçosos do Sul, amorosamente descritos por PIGS”.

E, acrescentou: “Hoje temos também a nossa vizinha Espanha e a Itália confrontados com a exigência de pagamento de juros usurários para conseguir obter nos mercados internacionais, o indispensável financiamento das suas economias debilitadas”.

“Vai-se mesmo mais longe insinuando que o desemprego deve ser visto como uma oportunidade, insinuando que estamos a pagar por termos vivido acima das nossas possibilidades, isto é, responsabilizando as pessoas e os cidadãos comuns por desenvolvimentos que tem uma motivação bem mais complexa e transcendente”, disse, aludindo a recentes declarações do primeiro-ministro, Pedro Passos Coelho, a propósito do aumento do desemprego em Portugal.

“Estamos num mundo onde as agendas se inverteram, onde a arrogação de novos critérios vai exigir uma solidariedade internacional que anteriormente só era concedida no plano das relações de vizinhança. Os conceitos de equidade e de justiça hoje têm como horizonte o mundo inteiro e as enormes discrepâncias de desenvolvimento e de condições de vida terão de se encaminhar para um ajustamento”, concluiu.