E o S. João a vê-los passar
Todos os anos, por meados de junho, as esquinas de certas ruas e praças a caminho da baixa do Porto começavam a aparecer bordejadas de vasos de manjerico espetados por bandeirinhas de papel com quadras populares. (Mal ganhavam para os fiscais da Câmara, que se apressavam a cobrar as respetivas licenças)
E a cidade começava a cheirar a S. João. Aqui e ali levantava-se uma mesa com “doce da Teixeira e regueifa”, outra com alhos-porros e ervas-cidreiras, com perfumes de bênção e de bom agouro. Mais tarde, surgiam fogareiros fumegantes nos passeios das ruas, espalhando o cheiro a sardinha assada.
Foi neste buquê de aromas que fiz o meu batismo sanjoanino, em 1975.
Havia, nesse tempo, um S. João em cada esquina, em cada bairro, e por toda a cidade se multiplicavam as cascatas. A grande multidão de portuenses e forasteiros deslocava-se pelas ruas como uma onda, deslizando em bloco, e caminhava toda a noite, percorrendo as artérias mais emblemáticas. Para muitos, o Palácio de Cristal era paragem obrigatória para comer caldo verde e sardinha assada no arraial popular instalado no recinto. E rematavam a noite nas Fontainhas, admirando a cascata monumental que, por norma, era uma cascata viva.
Ainda há uns anos era assim, mas o advento do martelo tornou mais rarefeitos esses odores, sobretudo o do alho-porro. E este ano a cidade não me cheirou a nada (qual é o cheiro dos martelos?) até ao dia 20.
Basta uma breve consulta ao programa das Festas da Cidade, que a autarquia portuense fez divulgar, para se perceber como o S. João tem vindo a perder autenticidade.
Para os que têm falta de memória, nunca é excessivo repetir: a noite de S. João do Porto é a festa mais popular, mais autêntica, mais espontânea e mais democrática da história das tradições. Sem paralelo no país e no mundo todo, atrai multidões, oriundas dos mais variados pontos do país, mas também da Europa e das Américas, que, sem qualquer convocatória e de forma totalmente espontânea, ao cair da noite de 23 de junho, se dirigem para o Porto, para conviverem de maneira descontraída, fraterna, tolerante, franca e cordial.
Junta ricos e pobres, velhos, crianças e jovens, patrões e desempregados, anonimamente, de qualquer clube, partido ou religião.
Ora, um fenómeno desde cariz, considerado instituição nacional, mas conhecido e estudado universalmente, surge subsumido no referido programa das Festas da Cidade, que se estende maio a julho e que elenca eventos não-municipais, como a Feira do Livro e o Festival de Serralves.
O povo, espoliado por cortes nas remunerações do seu trabalho e nas prestações sociais, subida dos impostos, dos custos da saúde e das faturas do gás e da energia, e à beira do desespero, precisa de festa, de evasão. Mas com critério.
O S. João não só não é a âncora do programa. O S. João é descaracterizado alegremente.
Salvam-se os bairros, onde a autenticidade das raízes da tradição sanjoanina vai perdurando, com as famílias e os amigos à volta das sardinhas assadas, das batatas cozidas e dos pimentos e das fêveras, em amenas cavaqueiras, bem regadas com vinho, que escorre permanentemente das pipas.
Alice Rios é escritora e jornalista, tendo-se destacado no “Jornal de Notícias” e no jornalismo de moda. ”Famílias Tradicionais do Porto” é a sua primeira obra literária. Faz parte do painel de colunistas da Opinião Porto24. Escreve segundo o novo acordo ortográfico.












Se fosse so’ p S Joao.,,