“Colocámos 70 quilómetros de infra-estruturas na cidade”

Teresa Lago no Centro de Astrofísica da UP, onde é investigadora. Foto: Pedro Rios
Volvidos 10 anos sobre o arranque da programação cultural do Porto 2001, Teresa Lago defende, em entrevista, porque é que era imperativo agarrar o comboio da Capital Europeia da Cultura.
Dez anos depois da Porto 2001, que marcas deixou a Capital Europeia da Cultura?
A avaliação que faço é muito positiva. A Capital Europeia da Cultura serviu, em muitas vertentes, para o Porto dar um salto qualitativo e significativo grande na sua vivência como cidade. Estou a referir-me, em primeiro lugar, aos equipamentos culturais, que é talvez o mais óbvio. Conseguimos renovar e construir novos equipamentos culturais, permitindo que o Porto ficasse com infra-estruturas de grande qualidade. E estou a pensar em S. Bento da Vitória, na Biblioteca Almeida Garrett, o Centro Português da Fotografia, a Casa da Animação, o Museu Nacional Soares dos Reis, a parte que foi renovada, a Casa da Música, naturalmente.
A nível da intervenção no tecido urbano, o que ficou?
A ideia que nos guiou foi: se estávamos a renovar equipamentos culturais, íamos também renovar o espaço público à volta desses equipamentos. Não só instalando infra-estruturas modernas, mas também renovando o espaço público de uma maneira que o tornasse convidativo para as pessoas. Acho que isso se conseguiu plenamente. Não é por acaso que a recente renovação de vida cultural e nocturna está ali à volta da Cordoaria, da Rua da Galeria de Paris, da Rua do Carmo.
Sente orgulho?
A minha interpretação, que é simplista, é esta: se tiver uma zona da cidade que seja apelativa, onde seja agradável andar, com árvores, é uma condição de partida para estimular outras iniciativas. Aquelas ruas são lindíssimas, mas há outras ruas lindas na cidade onde o espaço está completamente degradado. Estas iniciativas recentes são privadas: não há uma iniciativa municipal, um estímulo ou um projecto municipal para as estimular.
No que às infra-estruturas diz respeito, estamos a falar de um trabalho imenso e que não está à vista.
Não tenho na cabeça, mas tenho aqui uma anotação no meu livro de notas que ainda data da Porto 2001. Nós intervimos em 126 mil metros quadrados. Claro que não foi só na baixa, estão incluídas aqui a zona da marginal e a orla marítima até ao Parque da Cidade e outras pequenas coisas. Construímos também o Funicular dos Guindais e, portanto, aquela zona ali à volta também teve intervenções. Tenho aqui que colocámos 70 quilómetros de infra-estruturas na cidade.
Que infra-estruturas?
Estou a falar, por exemplo, de canalização de esgotos, de águas limpas pluviais, de telecomunicações, da parte eléctrica. Na zona das Carmelitas havia uma rua que não sofria intervenções há 80 ou mais anos. Aquela zona dos Clérigos era muito antiga. Em muitas daquelas ruas, a parte pluvial ainda estava misturada com a rede de esgotos. Isso não se vê, mas tudo isso está feito nas zonas em que houve a intervenção da Porto 2001.
Essas zonas coincidem com a baixa que agora está a renascer.
E que eu acho que é uma coincidência demasiado muito coincidente. Fui estudante na Faculdade de Ciências e depois professora ali e sei bem o que era a Cordoaria. O Jardim da Cordoaria era um sítio que a gente não atravessava, uma zona decrépita e mal frequentada. Não era agradável passar por lá e ouvir negociações de preços, por aí fora. Hoje, a Cordoaria é um sítio cheio de gente. Isso a mim agrada-me muito.
Mas é precisamente uma das obras que ainda hoje são criticadas, nomeadamente pela iluminação…
O sistema de iluminação não era funcional. Tínhamos naturalmente na Porto 2001 engenheiros que olhavam para estes projectos, mas ninguém chamou a atenção ou achou que aquilo podia não ser funcional. Foi um erro de desenho e que já devia ter sido corrigido.
Os atrasos nas obras aconteceram porque a Porto 2001 quis fazer de mais?
Acho que foi em Maio de 1998 que se soube que o Porto tinha sido escolhido para Capital Europeia da Cultura em 2001. A administração da Porto 2001 tomou posse a 31 de Janeiro de 1999. A seguir a isso, e criada a estrutura, começou a estudar-se um programa inicial, que era muito ambicioso. Incluía praticamente toda a cidade do Porto. No Verão de 1999, tinha começado a haver desentendimentos entre a administração e um dos accionistas, o Ministério da Cultura. Eu entrei em Novembro de 1999 e estava tudo muito atrasado.
Atribui os atrasos também a esses desentendimentos?
O tempo já era muito curto e não havia tempo para desentendimentos. Claramente houve uma quebra na actividade, pode ter sido durante dois ou três meses, mas num projecto que já tinha pouco tempo, torna tudo muito difícil.
Disse que o programa foi muito ambicioso. Mas foi de mais?
Sim, os meses de Dezembro e Janeiro foram de um trabalho brutal. Era preciso olhar para o programa e decidir o que se ia fazer. O tempo era muito curto. Nós íamos abrir ruas novas, fazer bairros novos, íamos intervir na marginal entre as duas pontes de ferro. Era um programa impossível. Tivemos de nos sentar durante longas noites e pensar “não pode ser, isto não é possível, onde é que está o financiamento?”. O próprio financiamento não estava garantido.
O programa inicial era utópico?
Era extremamente ambicioso, diria eu. Não é mau partir com um programa ambicioso mas, a certa altura, é preciso haver realismo e esse realismo não chegou a haver, pelo menos antes da minha chegada, talvez por causa dessas paragens, dessas interrupções.
A Casa da Música foi cara, ou pela obra de arquitectura e de engenharia que é e o que representa hoje, até foi barata?
As pessoas às vezes comparam coisas sem pensar, coisas que não são comparáveis. Sei que, depois de eu sair, houve renegociação com o arquitecto. Essa renegociação do contrato teve naturalmente custos. E o nosso orçamento era para a construção. O preço final que veio nos jornais [cerca de 100 milhões de euros] era o orçamento da Casa da Música funcional, com todo o equipamento que lá está. Se me perguntar se eu teria permitido chegar àquele orçamento, não teria. Porque acho que há coisas que foram feitas que não eram estritamente necessárias.
Tais como?
É preciso conhecer a casa em detalhe, ter conhecido o projecto inicial. Há lá portas metálicas que não existiam inicialmente e que tiveram um custo brutal. O orçamento que nós tínhamos, enquanto lá estive, era de 55, 4 milhões de euros. E quando eu saí, estavam comprometidos 34 milhões e o resto estava gasto.









