Há várias escolas de surf no Grande Porto. Foto: Pedro Rios

Há seis anos Rodrigo Lacerda, surfista há 24 anos, era delegado de informação médica. Queria “ganhar algum dinheiro extra” e decidiu abrir uma escola de surf. Durante algum tempo manteve os dois negócios, mas acabou por desistir do mundo dos medicamentos e voltar-se para as ondas em exclusivo. “Não ganho tanto dinheiro, mas faço o que gosto. Tenho um mini-império”, conta.

O “mini-império” chama-se Surf’s Cool e tem como sede a Praia Internacional, partilhada pelo Porto e por Matosinhos. É uma das cinco escolas de surf e bodyboard com sede em Matosinhos e Leça da Palmeira, segundo os números de 2010 da Federação Portuguesa de Surf.

A elas somam-se outras dez nos concelhos do Grande Porto, o que faz desta zona do país uma das mais atractivas para a fixação destes negócios. E as escolas são apenas um dos elementos do valor económico associado a estes desportos, estimado em cem milhões de euros anuais por cada zona com ondas de qualidade.

A Surf’s Cool tem cinco trabalhadores. As instalações são recentes e têm vários pequenos “luxos”: água quente, sala teórica, zonas para ioga, fitness e massagens e uma esplanada. A escola está aberta o ano todo e alguns dos alunos entram em competições. O que falta, lamenta Lacerda, é um maior investimento dos patrocínios, que “estão todos no Sul”, essenciais para viajar com frequência para campeonatos e melhores ondas.

A profusão de escolas leva mesmo o instrutor a dizer que a situação “está a ficar um bocado caótica“. Há escolas “completamente ilegais”, isto é, que não estão licenciadas pela Federação Portuguesa de Surf.

A dupla Matosinhos-Leça

Depois da moda dos anos 1990, “as pessoas já percebem que o surf é um desporto. Podemos usufruir da natureza de graça”, refere Rodrigo Lacerda. “O surf já não está na moda” e isso é uma boa notícia: “as pessoas experimentam, gostam” e permanecem fiéis ao desporto.

Surf, bodyboard e outros desportos de ondas são perfeitos para grandes cidades como o Porto, reflecte Manuel Centeno, campeão nacional e campeão europeu de selecções de bodyboard. O “contacto com a natureza” dá “equilíbrio à vida das pessoas”, argumenta.

Centeno, que é um dos sócios da escola Linha de Onda, destaca o binómio “perfeito” Matosinhos-Leça: a Praia Internacional, abrigada dos ventos de Norte pelo pontão, é indicada para aprender, enquanto a praia de Leça, onde surfa habitualmente, oferece ondas mais fortes.

Nem Matosinhos, nem Leça podem comparar-se a Peniche (tem nove escolas de surf e algumas das melhores ondas da Europa), reconhece Centeno. “Peniche começou a desenvolver-se através do surf. São privilegiados. Têm ondas do mais fantástico”, refere.

Ainda assim, o Porto tem condições para os surfistas atingirem “um nível entre o aceitável e o bom”. É para aumentar a qualidade dos surfistas portuenses que Manuel Centeno se envolveu no lançamento da Associação Onda do Norte (AON), que organiza provas locais.

“Quando comecei havia uma série de clubes nesta zona que faziam campeonatos regionais”, lembra. Alguns clubes deixaram de existir, deixando um vazio que a AON quer preencher.