António Campos Júnior

António Campos Júnior, director do Serviço de Transplantação de Medula Óssea do IPO do Porto. Foto: AIP

O director do Serviço de Transplantação de Medula Óssea (STMO) do Instituto Português de Oncologia (IPO) do Porto falou ao P24 sobre os 1500 transplantes de medula óssea realizados na unidade que ajudou a criar – esta terça-feira, este “número soberbo” foi assinalado com a largada de 1500 balões – e sobre o novo Serviço de Radioterapia Externa, que será inaugurado sexta-feira.

O serviço dirigido por António Campos Júnior foi considerado o maior da Península Ibérica e ficou em 33º lugar numa lista de 630 unidades de transplantação a nível mundial, num estudo da European Blood and Marrow Transplantation. O primeiro transplante de medula óssea aqui realizado aconteceu em 1989.

Qual é o significado desta cerimónia?

Esta comemoração dos 1500 transplantes é um marco muito importante no nosso serviço. Em qualquer sítio do mundo, 1500 transplantes é um número soberbo. O IPO decidiu comemorar, porque nós vivemos uma ligação muita estreita com a sociedade que nos rodeia. O IPO é considerado um hospital de referência na área oncológica, que tem cuidados de ponta e que olha pelos seus doentes.

Que condições fizeram com que o seu serviço fosse considerado como o maior da Península Ibérica?

Nós, até há 5 anos e meio, tínhamos uma unidade menor, com menos quartos e menos condições técnicas. Mudamos as instalações aqui para o edifício novo e a melhoria dessas instalações traduziu-se no aumento do número de transplantes realizados, na melhoria dos cuidados técnicos e, numa coisa muito importante, no aumento significativo do conforto para os doentes.

Esse trabalho continua agora com o novo Serviço de Radioterapia Externa, a inaugurar nos próximos dias?

Essa obra vem completar uma área muito importante. Parte dos regimes de condicionamento, de preparação de doentes para transplante, é feita, em muitos países do mundo, com recurso a radioterapia. Apesar de o termos feito até aqui só com quimioterapia, de isso ser aceitável e de termos tido resultados mais ou menos idênticos, de facto, o standard é a radioterapia. E nós vamos poder acertar o passo pelo resto da comunidade científica nesta área. E vamos poder, provavelmente antes do fim do ano, começar a fazer preparação dos doentes para transplante com radiação corporal total.

Quando é que os doentes do IPO do Porto poderão ser tratados no novo serviço?

Temos um grupo em preparação. Penso que em Outubro, mais ou menos, podemos arrancar com essa nova técnica. As instalações são inauguradas agora, mas é preciso preparar médicos, técnicos… Os transplantes também têm de ser preparados.

O IPO do Porto ficou recentemente classificado em 33º lugar, no que diz respeito ao total de transplantes efectuados. Que dimensão tem esta distinção?

Essa classificação surge com base num artigo da revista do EBMT [a Bone Marrow Transplantation, onde será publicado este ano o estudo "Special Report, The EBMT Activity Survey 2009: Trends Over the Last Five Years"], que é a organização internacional europeia que gere toda a actividade da transplantação de progenitores hematopoiéticos, e todas a unidades que são filiadas do EBMT têm de fornecer os seus dados e os seus registos de transplantação. Ficamos em 33º lugar num universo de 630 unidades, da Europa, mas não só, também do Norte de África, da África do Sul  e da América central e do Sul.

Como se posiciona o IPO no panorama nacional?

Nós fazemos 140 transplantes por ano e a unidade que a seguir faz mais transplantes, que é o IPO de Lisboa, faz cerca de 80.

Esses números são de que ano?

São de 2009. Em 2010, aumentamos o número de transplantes. Mas a média é essa: fazemos à volta de 140 transplantes por ano, mais dois, menos dois.

Qual é a relação entre os transplantes de medula óssea de um dador da família e os que recorrem a pessoas não relacionadas?

Metade dos transplantes que fazemos são alogênicos e a outra metade autólogos. Dos alogênicos, que quer dizer com necessidade de dador, 40% já são de dador não relacionado.

Qual é a situação actual do Registo Português de Dadores de Medula Óssea?

O CEDACE tem progredido em número e em qualidade, em qualidade de informação. Mas, na minha opinião, acho que se continua a investir de mais no número e de menos na qualidade da informação. A qualidade da informação passa por ter dadores estudados em alta resolução. Quando se fazem as campanhas de angariação de dadores, o que se faz habitualmente é a chamada tipagem HLA de baixa resolução, que não dá para nós decidirmos por um dador. Precisávamos de ter uma informação mais fina. E isso é caro e é demorado, mas o dinheiro que se investe em campanhas para ter mais dadores podia ser encaminhado para termos melhores dadores.

O tempo que se perde à espera dessa informação mais fina condiciona o desenvolvimento da doença oncológica?

Nós perdemos doentes anualmente porque não conseguimos arranjar-lhes dadores a tempo. A primeira informação que nos chega é pouco trabalhada. Para além de que 50% dos candidatos a transplante nunca consegue arranjar um dador. Ao contrário do que se pensa, há muita gente que tem, que nunca consegue arranjar um dador.

No universo de 1500 doentes transplantados, qual é a taxa de sobrevivência?

A taxa de sobrevivência depende dos tipos de doença, da fase evolutiva da doença… Mas, genericamente, na Leucemia Mieloblástica Aguda, cerca a 60% a 70% dos doentes curam, na ]Doença ou Linfoma de] Hodgkin à volta de 80%, anemias aplásticas acima dos 90%, a Leucemia Linfoblástica Aguda entre 50% e 60%.