Jovens de Lordelo do Ouro juntam-se ao Bloco e envolvem-se na campanha

Tiago Gomes, 24 anos, estudou na Escola Artística Soares dos Reis e candidatou-se este ano à Faculdade de Belas Artes da Universidade do Porto. O jovem, morador nas Condominhas e membro da lista do Bloco de Esquerda à União de Freguesias de Lordelo do Ouro e Massarelos, é o artista que assina o quarto outdoor da candidatura do BE ao Porto.

A candidatura encabeçada por José Soeiro convidou 7 artistas para trabalharem 7 temas em 7 outdoors de campanha. O de “Go Mes”, como é conhecido o writer Tiago Gomes, fica no Jardim de António Cálem, junto ao rio Douro, e até ao final desta sexta-feira deverá ficar concluído.

A ideia, conforme explicou há dias José Soeiro, é “falar de política através da arte pública”. Num intervalo da pintura, que esta quinta e sexta-feira, prendeu os olhares de fregueses, condutores e até turistas, Tiago começa por dizer ao P24 que “não conhecia esta forma de fazer política”

Tiago Gomes. Fotos: AIP

Tiago Gomes, de apenas 24 anos, é o artista convidado para criar o quarto outdoor do BE. Fotos: AIP

O jovem escolheu a frase “Devolver o Porto às pessoas” e tentou criar “um cenário” que explicasse por que e do que está a cidade refém. As torres do Aleixo a submergirem nas águas do Douro, as pessoas do bairro a nadarem até à margem do rio e, ao longe, o centro histórico – “onde há muitas casas fechadas”, aponta Tiago – e a temática da reabilitação urbana.

“Vieram pessoas agradecer-nos por estarmos aqui a pintar. Acham piada ao facto de estarmos a pintar outdoors políticos. Toda a gente pára. Passam aqui aqueles autocarros de turistas e eles acham espectacular”, contou ao P24 o independente, na manhã desta sexta-feira.

Tiago tem dúvidas que o processo de demolição do Aleixo possa parar – das 5 torres, ainda estão de pé 3 –, mas diz que “o mais correcto seria construir casas de habitação social” no local.

Diogo Matos, 18 anos, gosta “de pintar” e foi até ao jardim do Cálem para “ajudar” o amigo. “Apesar de eu não estar muito ligao à política, acho que esta é uma mensagem que deve ser defendida por toda a gente da cidade, porque o Porto está a cair na degradação social. E com este painel nós estamos a retratar isso”, justificou ao P24, lamentando que os moradores do Aleixo que nada tinham a ver com o tráfico de droga tenham saído do bairro onde viveram toda a vida. A maioria foi realojada na Pasteleira Nova, Mouteira, Pinheiro Torres.

O jovem, que cresceu na Fontinha e mora actualmente no Ameal, entende que “não há sentido em deixar o resto [do bairro] de pé”. ”Há e não há”, ressalva, pensando em quem ainda ali vive.

“Estou a filmar só, a pintura não é para mim”, disse José Oliveira, de 18 anos. Mora em Lordelo do Ouro, no Bairro da Pasteleira “Velha”, e conhece a problemática do Aleixo de perto, quando filmou a curta-metragem ”Nunca pensei que o bairro viesse mesmo abaixo”, uma experiência que partilhou com outros jovens da AGIL – Associação de jovens de Lordelo do Ouro e cujo resultado chegou a ser exibido em Serralves.

Foto: Ana Isabel Pereira

Tiago e Susana vivem em Lordelo do Ouro e conhecem de perto os problemas da freguesia.

“Quem mora numa casa como a do Bairro do Aleixo e paga 30 e poucos euros de renda social e vai para outro bairro social em que passa a pagar 300 e tal… As pessoas não ganham nada com isso. Se conseguirem parar o processo [de demolição] agora, vai ser bom para as pessoas que ainda lá estão, mas também vai ser um bocado triste para quem teve de sair”, diz.

Sobre a iniciativa do Bloco, diz ser “bastante positivo” que haja um partido político que dê a palavra aos jovens. “A a política não é feita só por pessoas de 50 anos”, afirma.

Zé, como lhe chamam os amigos, estreou-se nas filmagens com o documentário “Mixar Caminhos” (2010), que “foi ao IndieJúnior, a Lisboa”. Contactou com a candidatura de José Soeiro  ”numa fase mais avançada” da corrida eleitoral, mas já esteve em reuniões onde ouviu as ideias dos bloquistas.

A terminar o secundário, na área de Ciências e Tecnologias, quer seguir os estudos em Multimédia.

Susana Constante Pereira, a candidata do BE à fusão de Lordelo do Ouro e Massarelos, passou pelo Cálem e explicou ao P24 que, desafiados para esta “abordagem participativa”, os jovens da zona sentiram que a questão do Aleixo “era prioritária de trabalhar”.

“Há uma comunidade juvenil activa e pró-activa na freguesia a quem não está a ser dado espaço para participar e actuar”, alerta a formadora de 38 anos, que também reside em Lordelo do Ouro. São jovens “com muito potencial”, potencial esse que, “pelo estigma da freguesia [onde moram], é negligenciado”, lamenta a candidata.

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